terça-feira, 30 de dezembro de 2014

20141228 Noite

Noite


É o silêncio da noite
As palavreas ditas e ouvidas dormem num imenso cesto de vime.
Como roupas usadas na espera de sua lavagem.
Para lavar palavras basta lhes conferir novos usos.
Se renovam no uso mesmo.



E assim se faz o verso.
O artigo de jornal.
O conceito filosófico.
A descarga emocional.



É o silêncio da noite.
A cidade fala seus sons motorizados.
Velocidades imprudentes
Nhambiquaras, Maracatins, Carvalho de Mendonça
E penetrações insurgentes.




Na noite tudo vale
a pena
a correr no papel.




Resgatando palavras para resignificá-las.
Atribuindo sensos nada consensuais.
Irados, iracundos, revoltosos.
No silêncio da noite a ira é mais feroz
A palavra sempre ecoa a altos brados.



Palavras e palavróes em meio a carícias
E tudo metrificado no motel pago a hora.
Por dentro e por fora do casamento.
Mas que importa?
Vale a respiração ofegante.
Valem os corpos soltos de tanto prazer.



Enfim.
É o silêncio da noite.



Paulo Cesar Fernandes

28/12/2014

domingo, 28 de dezembro de 2014

20141228 Concretude textual

Quero quebrar as palavras, as prateleiras, destruir a Sala de Jantar.
Trocar todos os móveis e imóveis de lugar.

Da palavra tosca descobrir novos sentidos e construir castelos de vinho por vinhedos que jamais verei.

Me embrenhar nos sonhos e fazer cair todas as máscaras de todos os caminhos.

Alles luge! nos diz Rio Reiser.
É tudo mentira mesmo.


Se a poética não tiver espaço no canto do pássaro, e na mão que afaga.
Se a tua dor não me tocar e o teu riso não me fizer mais feliz.


A vida é breve, sacanamente breve.
Quando será a minha vez?


Por isso é urgente pisotear as palavras e faze-las plenas de tanto viver.
Estufadas de Vida a não mais poder.


O futuro eu trago nas minhas mãos.
Este segundo é tudo.
O passado morreu.


E aqui vou eu.
Nas asas do incerto, rumo ao desconhecido.
Para trás ficaram escombros.
Nada retornará.


No compasso de cada hora
Eu posso renascer.



Paulo Cesar Fernandes

28/12/2014

20141222 Cavalo Baio

Cavalo Baio


O dia vem chegando
Vai ser mais longo
Pois é verão



Chuva no final da tarde
Abafa o mundo


Mas rega o chão


Quero seguir cantando
Fazer amigos


Com emoção, e daí?


Se somos todos estradeiros
Com meu Baio vou
Sempre em boa direção

Do caminho sabe ele
E da alma humana
Mais sabe que eu



Muito deixo me oriente
Seu trote firme
Sinaliza cada dia
Sua alegria
Em comigo caminhar



E assim vamos
No sol ou na chuva
Mas sem pressa de chegar



Se o medo em mim ata
Ele traz coragem
Em cada uma das patas



É o meu cavalo Baio
Sempre ao meu lado
É minha guarda
Nos embates da vida
Me consola e me encoraja.



Portal Fernandes

22/12/2014

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

20141227 Remotos fatos

Remotos fatos


Que tenho eu na mão agora?
Um verso? Um poema? Um artigo?
Uma mancha de limão ao sol.
De uma caipirinha, dez anos atrás.
Atrás dela vejo em minha boca.
O gelado do gelo, o sabor do limão, os grãos do açúcar.



Salivo como o cão de Pavlov.
Sensações não marcam os sentidos.
Se engana quem nisso crê.
Sensações marcarcam o profundo do Ser.



Esquecemos o nome.
Mas nunca as sensações.
Seu corpo nu.
Nu e provocante diante do espelho.
No meio da noite a clamar por mais.



Meu corpo exausto.
O Ser em êxtase.
Também pede mais.
Não claudicar, não.
Brincar com o tempo.
Um poema salva.
Recuperação vital.



E mais. E mais.
O nome não lembro.
Seu corpo moreno.
Seu odor de fêmea.
O sabor de mar.
Meu rosto salgado.



A poética da vida.
Tomou meu coração.
Bate célere.
Do chão da sala vejo.
Sua tesoura aberta.
Sobre meu corpo estirado.
E a lata de cerveja.
A caminho dos lábios meus.



O Ser é.
Acima de tudo.
Repositório.
Das mais suaves sensações.
E o tempo?
Não tem força capaz.
De apagar nenhum sonho.




Paulo Cesar Fernandes
27/12/2014


P.S.: Aos 63 anos. Cabe a vida e cabem lembranças.

sábado, 29 de novembro de 2014

20141129 Apenas um caso

Gota D'água   (Chico Buarque

Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia

Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa

Por favor



Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água



Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor



Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água



Pode ser a gota d'água
Pode ser a gota d'água

===



Num documentário sobre a vida de Flávio Rangel, esse ícone do teatro brasileiro. Se não me engano foi Paulo Autran quem contou.

Certa noite, o câncer na garganta já ia em fase avançada, alguns
amigos chegaram à casa de Flávio na hora de seu banho, tendo que
aguardar sua chegada da parte superior da casa.

Na descida, num ato teatral de muito bom humor sai cantando este trecho da canção:

 
"Olha a voz que me resta
 Olha a veia que salta
 Olha a gota que falta
 Pro desfecho da festa"


Possa eu, diante das desditas futuras ter a mesma atitude perante a
Vida.

A coragem, nos momentos cruciais, pode ser um exemplo para todos os que ficam atrás de nós.


Paulo Cesar Fernandes

29/11/2014

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

20140120 Veredas existenciais


Dor. Pois damos demasiada importância a nós mesmos, a nossas infantis ilusões, às coisas buscadas: quer materiais ou sentimentais; porém sempre idealizadas e, infelizmente colocadas distantes de nossa essência.


Aliás, nesse processo não temos essência, somos somente uma busca perambulando por las calles, e jamais encontramos o real caminho de nossa interioridade, quem realmente somos, ou queremos ser.


Vagamos, não vivemos.


Somos corpos se deslocando sobre as sombras, e tendo atadas aos pés as correntes pesadas das ilusões trazidas da família, da escola, dos amigos e colegas. Todas aceitas por nós sem a menor reflexão racional.


Somos espectros. Alguns por toda a vida. Outros rompem o processo. Dão às costas à sociedade e às opiniões exteriores às próprias reflexões.


Alguns fatos de destacam nesse corte radical:

1. a solidão, para alguns assustadora;

2. a libertação para viver e voar; quer simbolicamente, quer nas asas de um planador qualquer;

3. morre o Ente de nosso passado, e assim passamos à categoria de SER. Com novas posições e posturas, novos perigos a enfrentar, e desafios a vencer.


Porém, mais que nunca, seremos um devir ambulante, capaz de traçar seus roteiros e encena-los; ou por eles enveredar com todas as suas marchas e contramarchas.


Tidos por loucos, seremos a coragem a se deslocar por todos os espaços. Dentro e sobre nossos mais profundos anseios. Rompendo nossas limitantes.


E finalmente, talvez possamos ser uma inspiração aos espíritos sagazes, capazes de sair em busca do novo para suas existências.


Que assim possa ser!


Paulo Cesar Fernandes

20 01 2014

P.S.: Texto dedicado a João Guimarães Rosa, um mestre perene em minha vida.

20141123 Vamos indo

No lento caminhar para meus 64 anos lembro de "When I'm 64" dos Beatles. Lá na juventude tudo isso me parecia tão longe, algo
quase inimaginável. Mas aqui estamos. Ou quase lá.



E a cada passo uma dúvida me assalta: se o transeunte vindo em minha direção vai tirar a minha vida, ou se saio ileso de mais
este encontro.


Viver é sempre na corda bamba, neste Brasil atual. São mais de 51.000 assassinatos ao ano. Nos sete anos da Maldita Ditadura
Militar Argentina foram 30.000 mortos e desaparecidos. O Brasil mata mais a cada ano que aquela horrenda Ditadura Militar. É
um horror o que se passa no Brasil. É desumano.


A dúvida me segue a cada passo.


Dúvida de minha vida; dúvida de minha cidade; dúvida de meu país.


Tantas certezas na juventude e hoje isto. Jung a chama de Idade dos Contrários. Vazio de certezas, sou niilista.


Sem certezas, mas pleno de sonhos: o que se apresenta no Brasil e no mundo cairá pela força mesma das coisas. A força natural
do destino das nações.



O vento, na Carvalho de Mendonça bate em meu rosto. Renova meus pensamentos. Abre sulcos para novos sonhos, e neles me pauto para grandes voos, singrar os ares da imaginação e da criatividade.


Afinal sigo sendo uma Revolução, apesar dos meus 64 anos. Trago comigo um tempo fortemente vivido. A ousadia em alta em cada
etapa.


Não vou me render agora! Avante sigo!

Há muito por que lutar, tirar o Estado do seu lugar de conforto.


Não restará pedra sobre pedra, se formos todos um TSUNAMI.


Paulo Cesar Fernandes

23/11/2014